quarta-feira, 20 de março de 2013

Laurence Tholf: O dia em que morri

O imediato dizia que a tempestade iria passar.
Mas nisso já havia-se passado quase uma semana.

Estava eu no convés, encarando a chuva. 
Ela estava mais fraca naquela manhã.
Uma rajada de vento soprou e meu chapéu foi parar em alto mar.
Me senti nu. 
Desprovido de meu companheiro de anos.

Me sentia molhado. 
Como se a chuva trouxesse muito mais do que apenas águas, mas sim lembranças de uma vida em cada gota.

O frio penetrava na carne e ardia como fogo gélido nos ossos.

A embarcação não sabia para onde ir.
Estava cercada por brumas.

Os homens enlouqueciam.
Eu ouvia vozes de socorro por todos os lados, inclusive dentro de mim, que se misturavam com o som de madeira rangendo.

Não sabia mais pra onde olhar, meus olhos estavam cegos, assim como meu coração.
Minha mão fraquejou na corda que eu segurava e mergulhei em águas salgadas como lágrimas, frias como uma noite de solidão.

...

Me sentia afundando mais e mais...

...

Sombras pareciam passar nadando por mim, mas quando me virava para observá-las não estavam mais lá.

...

*afundando*

...

Me senti agarrado pelos pulsos com força, mas isso só me fazia me sentir mais inerte.

...

*afundando*

...

Um bardo sem seu chapéu não é bardo.
Encaro esta janela em silêncio, ignorando as vozes que me cercam.
O fogo arde tentando trazer um conforto ao corpo cansado.
A noite na taverna é calorosa em alegrias, falsas alegrias trazidas pela bebida.
Eu ignoro.

Este foi o dia em que morri.

Um bardo sem seu chapéu não é bardo.

Essa é toda a história que eu sei, aquilo que lembro.

...

Continuo olhando em silêncio a janela, acalentado por uma bebida e um cigarro, observando as nuvens noturnas à espera de um sinal entre elas.

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