domingo, 31 de março de 2013

Laurence Tholf: O que marca

O significado das coisas vive no tempo.

...

O presente é o que marca. 
Ignoramos qualquer ligação com o passado.
O que conta é o agora.

É estranho um bardo pensar assim, mas é o que penso.

As histórias do passado são apenas histórias e normalmente são soterradas pelos nossos sentimentos do presente.

Cabe o bardo então contar estas histórias. Afinal, não lembraremos dela quando o presente chegar.

Mas não consigo contar história nenhuma.

...

O que marca é o ruim.
Não importa o quão bem possamos construir uma história, são os fatos ruins que irão marcar.

E é tudo que consigo lembrar.
Do mal que fiz, das coisas ruins ligadas a mim.

...

Em minha mente grita o silêncio de vozes passadas.
Como o perfurar de mil agulhas na minha carne elas dilaceram meus sentidos.

sexta-feira, 22 de março de 2013

Imagens: Espinhos

Uma pausa forçada nas aulas. Estudos deixados de lado. Um cigarro. Escola de Administração da UFRGS (9h14 do dia 22/3/2013).

A natureza esconde seus espinhos e suas folhas secas.

O ar é entorpecido pela nicotina em meus pulmões.

Pensamentos em devaneio.

Apenas espinhos que penetram na carne...

... antes fosse uma dor física.


quarta-feira, 20 de março de 2013

Laurence Tholf: O dia em que morri

O imediato dizia que a tempestade iria passar.
Mas nisso já havia-se passado quase uma semana.

Estava eu no convés, encarando a chuva. 
Ela estava mais fraca naquela manhã.
Uma rajada de vento soprou e meu chapéu foi parar em alto mar.
Me senti nu. 
Desprovido de meu companheiro de anos.

Me sentia molhado. 
Como se a chuva trouxesse muito mais do que apenas águas, mas sim lembranças de uma vida em cada gota.

O frio penetrava na carne e ardia como fogo gélido nos ossos.

A embarcação não sabia para onde ir.
Estava cercada por brumas.

Os homens enlouqueciam.
Eu ouvia vozes de socorro por todos os lados, inclusive dentro de mim, que se misturavam com o som de madeira rangendo.

Não sabia mais pra onde olhar, meus olhos estavam cegos, assim como meu coração.
Minha mão fraquejou na corda que eu segurava e mergulhei em águas salgadas como lágrimas, frias como uma noite de solidão.

...

Me sentia afundando mais e mais...

...

Sombras pareciam passar nadando por mim, mas quando me virava para observá-las não estavam mais lá.

...

*afundando*

...

Me senti agarrado pelos pulsos com força, mas isso só me fazia me sentir mais inerte.

...

*afundando*

...

Um bardo sem seu chapéu não é bardo.
Encaro esta janela em silêncio, ignorando as vozes que me cercam.
O fogo arde tentando trazer um conforto ao corpo cansado.
A noite na taverna é calorosa em alegrias, falsas alegrias trazidas pela bebida.
Eu ignoro.

Este foi o dia em que morri.

Um bardo sem seu chapéu não é bardo.

Essa é toda a história que eu sei, aquilo que lembro.

...

Continuo olhando em silêncio a janela, acalentado por uma bebida e um cigarro, observando as nuvens noturnas à espera de um sinal entre elas.

domingo, 17 de março de 2013

Laurence Tholf: A Máscara

Um dia vislumbrei a história de um herói.

Este herói usava uma máscara e capa negra.
À noite assemelhava-se com um morcego.

Ele nem percebia quem ele era mais.
O homem ou o herói construído.

Mas conheceu uma mulher. Também uma heroína.
Também com sua máscara.

Apaixonou-se.

Mesmo se ele quisesse se esconder, sua máscara era transparente para ela.
Ela observava a sua alma.
E isso o fascinava.

Viveram aventuras juntos nas sombras da noite.
Conheceram pedaços um do outro que ninguém jamais poderia saber. 
Exatamente o que a máscara tentava esconder.

Mas como em toda história de herói existia um vilão.
Mas este não era um vilão comum.
Morava de forma diferente dentro do coração de ambos.

Com o tempo o vilão conseguiu os separar.

...

Sobre a heroína não soube mais nada.
Mas este herói tentava colocar a sua máscara novamente, mas o peso dela era tanto que ele não a suportava.
O vilão que o consumiu destruiu o herói.
Perder a pessoa que o completava, servia de vigia a suas costas, foi grande.
A vergonha.
Ele sabia que havia falhado. Nem a sua máscara poderia esconder a vergonha que sentia em seus atos.

...

O homem prevalece frente ao herói.
Mas ainda assim este homem esconde-se nas sombras.

Talvez ele espere o rufar de asas noturnas se aproximando.
O arauto de que sua heroína se aproxima.
Mesmo que apenas como uma amiga de aventuras.

...

Aliás, é só o que ele espera!
Uma amiga de aventuras!
A sua amiga!