Aquela cigana puxou uma carta para mim.
O Enforcado.
A imagem de um homem preso pelo pescoço por uma corda. Ao fundo uma pequena cidade e uma bela paisagem.
...
Engraçado.
No dia anterior havia passado por um cenário parecido.
...
Era uma cidade pequena.
Quando a adentrei parecia mais uma cidade fantasma.
Onde os fantasmas eram reais...
...
Um silêncio a corroía.
Só quebrado por um fraco choro.
No meio da cidade uma forca, um Enforcado, uma mulher chorosa e duas crianças abraçadas nesta.
...
Olhei para O Enforcado por um segundo.
Tudo bem, foi um pouco mais...
Arrumei o chapéu na cabeça, acendi um cigarro e continuei olhando a cena.
Era hipnótico, do meu ponto de vista ao menos.
Um movimento pendular causado pelo vento empurrava O Enforcado para lá e para cá fracamente.
...
Não era o momento para perguntas. Apenas indagações mentais.
Terminei o cigarro ali, naquele cenário onde até mesmo o sol parecia esconder-se por entre nuvens e rumei até a taverna.
...
O taverneiro quase se escondia por detrás do balcão.
Nas mesas, clientes que pareciam conversar por telepatia.
Um olhar perdido e triste em cada pessoa naquele local.
...
Pedi uma bebida, uma forte, um destilado, um rum... acho...
Mais um cigarro.
Arrumei o alaúde próximo a cadeira em que estava sentado, próximo do balcão.
...
O taverneiro me olhou e ele sabia o que queria.
Não, não era mais uma bebida.
Era uma história.
Ele queria me contar, mas não conseguia.
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Em uma mesa mais afastada, um outro viajante arrumou uma cadeira e acenou para que eu a ocupasse.
Ele também sabia o que eu queria.
Quando me ajeitei na cadeira o viajante começou a falar.
...
"Um inocente, ao meu ver..."
Foi como começou. Demorou a continuar e eu não abri a boca, apenas observei-o.
Mas aquela pequena fala já fez sentido ao que via.
...
Por que condenar um inocente à forca?
Esta era a indagação em minha mente.
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O viajante continuou um tempo depois, animado por mais uma bebida.
...
"O Enforcado que vê lá fora era um homem, como eu ou você. Um inocente. Com crimes que talvez apenas a consciência dele poderia condená-lo.
E todos aqui sabiam!
Mas mesmo assim o fizeram.
O julgaram e o enforcaram."
...
Em silêncio desviei o olhar para o meu copo vazio.
Com um sinal, pedi ao taverneiro a garrafa.
Aquilo iria longe...
...
"A inveja dos outros foi o seu derradeiro crime.
Ele era um talentoso homem, não nas artes das armas... ou da música, como você.
Ele era talentoso em criar invejosos.
...
Ele falava e inspirava pessoas... provavelmente como você faz.
Mas inspirava ainda mais os invejosos. E estes já haviam a muito tempo trilhado o caminho do controle.
Não aceitariam mudanças por aqui.
Nada além daquelas que já haviam causado."
...
Acendi um cigarro e fitei o ambiente.
Todos cabisbaixos.
Se ouviam o que o viajante me contava, ignoravam.
...
"Uma mulher morreu.
Atacada por este insano, ao que dizem.
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Vi os ferimentos dela. Atacada por um lobo, é o que eu digo. E já vi muitos ferimentos de lobo e de facas...
O lobo não foi encontrado, mas tenho certeza de que o herói jaze lá fora, Enforcado."
...
Agradeci o viajante pela história.
Não. Não precisava que ele continuasse.
Histórias de homens gananciosos que barganham a alma de pessoas conheço muitas e eu sabia como era.
Dei para o viajante o que sobrou dentro da garrafa.
Coloquei o alaúde nas costas e saí pela porta.
...
O choro havia parado.
A cena havia mudado.
Mas lá estavam a mulher, não mais com as duas crianças, mas sobre uma lua imponente na forma de uma foice.
...
O Ceifador.
Foi a próxima carta que a cigana me mostrou.
Sim, ela queria contar uma história do meu passado recente.
E seu olhar não era dos melhores...
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